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A Arquitetura do Afeto e do Território: A Transformação da Casa de Mainha

  • Foto do escritor: Anne Trindade
    Anne Trindade
  • 26 de mai.
  • 4 min de leitura
Casa de Mainha
Foto: Hélder Santana

Localizada no agreste pernambucano, na cidade de Feira Nova, a cerca de 80 quilômetros do Recife, a "Casa de Mainha" é um notável projeto de reforma residencial de 165 m². Assinada pelo arquiteto Zé Vagner, de 34 anos, e sua equipe do Studio Zé, a obra alcançou prestígio global ao se consagrar como o único projeto brasileiro finalista e vencedor do Prêmio ArchDaily Building of the Year 2026, na categoria Casas. O feito coroa o reconhecimento que a residência já havia conquistado no final de 2025, ao ser premiada pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil em Pernambuco (IAB-PE).


História e Motivação: Arquitetura de Filho para Mãe


Erguida na década de 1980, a moradia original foi construída com a técnica de adobe pelos próprios pais e avós do arquiteto. Essa fundação carrega um profundo valor afetivo e de memória para a família, algo que ficou ainda mais evidente durante as obras, quando foram descobertos tijolos originais que preservavam as marcas dos dedos de quem os moldou à mão.


Com o passar dos anos e a necessidade de abrigar novas dinâmicas familiares, o imóvel sofreu uma série de adaptações informais, os chamados "puxadinhos". Contudo, essas intervenções tornaram o ambiente excessivamente denso, mal iluminado e propício ao mofo. Esse cenário insalubre acabou por agravar os problemas respiratórios da moradora do espaço: Dona Nalva, mãe do arquiteto e costureira de 59 anos.


Iniciada logo após o carnaval, em março de 2025, a reforma surgiu como uma resposta a essas urgências, visando oferecer à moradora mais qualidade de vida e um lar mais arejado. Mais do que uma solução técnica, o projeto nasceu de um comovente gesto de gratidão: foi a maneira que Zé Vagner encontrou de retribuir à mãe os sacrifícios que ela fez para garantir que ele pudesse estudar.


Soluções Arquitetônicas e Materialidade Vernacular


A concepção do projeto foi fortemente embasada nas premissas do Roteiro para construir no Nordeste (2010), de Armando de Holanda. Buscando adaptar a moradia ao rigor do clima tropical, a intervenção priorizou pilares como a ventilação cruzada, a maximização da iluminação natural, o baixo custo de execução e a valorização de materiais locais.


Na reestruturação espacial, o arquiteto integrou cinco ambientes que antes eram subutilizados, transformando-os em uma ampla sala conectada a um jardim interno e a um terraço aberto. Para solucionar o problema das altas temperaturas, o pé-direito foi elevado e aplicou-se um desnível no telhado. Essa alteração estrutural permitiu a inserção de onze peças de cobogós na fachada poente — uma estratégia de exaustão térmica altamente eficiente e estética que custou apenas cerca de R$ 120, e que hoje desenha belas sombras no interior da residência. Outro recurso econômico e funcional foi o uso de placas de concreto pré-moldado como brises horizontais sobre as janelas, o que permite que elas permaneçam abertas mesmo em dias de chuva.


A escolha dos materiais foi precisa, aliando funcionalidade climática e apelo estético. As históricas paredes de adobe foram preservadas e, trabalhando em conjunto com os tijolos maciços sem reboco, garantem à casa uma alta inércia térmica, mantendo os ambientes frescos durante o dia. O respeito à história e à economia também pautou as decisões de acabamento, como a manutenção da porta de entrada original, com mais de 30 anos de uso, visando conter custos e garantir a privacidade.


Casa de Mainha Axonometrica
Foto: Studio Zé, via Archdailly

Impacto Social, Comunitário e Metodológico


Diante das limitações orçamentárias que inviabilizavam a contratação de engenheiros, a obra ganhou vida pelas mãos de uma equipe local e reduzida, formada pelo pedreiro Eduardo Oliveira, a ajudante Marluce Oliveira e o ceramista Sr. Cassimiro. Zé Vagner implementou uma gestão horizontal no canteiro de obras, escutando atentamente os trabalhadores e garantindo-lhes liberdade. Essa postura promoveu uma rica troca de saberes, unindo o conhecimento técnico da arquitetura à vasta experiência construtiva vernacular.


Os resultados dessa transformação transcenderam a dimensão física. Dona Nalva encontrou um novo ânimo para cuidar do seu espaço, e a casa finalmente cumpriu sua vocação de ser o grande ponto de encontro de toda a família. O impacto irradiou de forma imediata pela comunidade, transformando a residência em um verdadeiro motivo de orgulho para a vizinhança. A rua, antes pacata e sem muito movimento, passou a atrair a atenção de pedestres, muitos dos quais chegam a parar para se benzer diante do pequeno oratório que foi delicadamente inserido na fachada.


A "Casa de Mainha" consolida-se, assim, como um exemplo poderoso de que é plenamente viável produzir uma arquitetura de excelência e responsiva mesmo com poucos recursos. Ao costurar afetividade, inteligência climática e um profundo respeito à cultura local, o projeto comprova que intervenções precisas podem ressignificar a experiência de habitar, oferecendo lições valiosas e inspiradoras para o futuro das políticas de habitação de interesse social.



FONTES

ArchDaily Brasil – Casa de Mainha / Studio Zé. Publicação com informações sobre o projeto Casa de Mainha, incluindo contexto urbano, conceito arquitetônico, soluções espaciais e características da intervenção desenvolvida pelo Studio Zé.


IAB – Casa de Mainha Página institucional do Instituto de Arquitetos do Brasil com informações sobre o projeto Casa de Mainha, destacando aspectos arquitetônicos, sociais e urbanos da obra.


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