Mulheres no Prêmio Pritzker: trajetórias de invisibilidade e reconhecimento na arquitetura
- Pryscilla Zamberlan

- 31 de mar
- 5 min de leitura
Atualizado: 2 de abr

O Prêmio Pritzker de Arquitetura ocupa, há décadas, uma posição central na validação da produção arquitetônica contemporânea. Mais do que premiar obras, ele constrói narrativas sobre autoria, relevância e impacto global.
A premiação não atua apenas como um reconhecimento técnico, mas como um dispositivo simbólico de legitimação. Ao selecionar determinados arquitetos e trajetórias, o prêmio contribui diretamente para definir quais discursos, linguagens e abordagens passam a ser considerados centrais no campo da arquitetura, influenciando desde o ensino acadêmico até as dinâmicas do mercado imobiliário e cultural.
Ao longo do tempo, seus laureados tornam-se referências globais, não apenas por seus projetos construídos, mas pela capacidade de representar um determinado “espírito de época”. O prêmio, portanto, não apenas reflete a produção arquitetônica, mas ajuda a orientar seus rumos, consolidando tendências, validando experimentações e ampliando a visibilidade de determinadas agendas, como sustentabilidade, urbanismo social ou inovação formal.
No entanto, ao longo dos anos, uma questão tornou-se recorrente: a baixa presença de mulheres entre os laureados e, em alguns casos, a invisibilização de suas contribuições criativas e técnicas em parcerias com arquitetos homens, cujo reconhecimento foi atribuído de forma isolada.
Mulheres que redefiniram o Pritzker
Em 1979, o empresário norte-americano Jay Pritzker, herdeiro e cofundador da Hyatt Hotels Corporation, criou ao lado de sua esposa, Cindy Pritzker, o Prêmio Pritzker, com o objetivo de reconhecer arquitetos cujo trabalho articula talento, visão e impacto duradouro.
Na sua primeira edição, a premiação consagrou Philip Johnson, arquiteto norte-americano conhecido por obras icônicas como a Glass House e por sua atuação na difusão do modernismo e do pós-modernismo na arquitetura.
Ao longo dos anos, até 2026, foram 48 edições do prêmio com 54 arquitetos agraciados, pois houveram casos anos em que a premiação foi concedida a sócios de um mesmo escritório, além do caso único em que Oscar Niemeyer compartilhou o prêmio com Gordon Bunshaft. Destes, 48 prêmio foram concedidos à homens e 6 foram recebidos por mulheres.
Apesar da sub-representação histórica, algumas arquitetas premiadas pelo Prêmio Pritzker de Arquitetura tiveram suas importantes trajetórias reconhecidas.
A premiação de Zaha Hadid, em 2004, representa um marco simbólico. Primeira e única mulher a receber o prêmio individualmente, Hadid consolidou uma linguagem arquitetônica inovadora, marcada por geometrias fluidas e forte experimentação formal. Sua trajetória rompe não apenas uma barreira de gênero, mas também desafia as formas tradicionais de projetar, ao expandir as possibilidades espaciais, estruturais e construtivas da arquitetura.

Em 2010, Kazuyo Sejima foi reconhecida ao lado de Ryue Nishizawa, pelo trabalho desenvolvido no SANAA, com sede em Tóquio no Japão. Sua produção é marcada por leveza, transparência e precisão espacial. Ao explorar a continuidade entre interior e exterior, edifício e cidade, suas obras propõem espaços que se constroem mais pela experiência e pela relação com o entorno do que pela imposição formal, evidenciando uma abordagem ao mesmo tempo sensível, radical e profundamente contemporânea sobre o papel da arquitetura no tecido urbano.

Já em 2017, Carme Pigem foi premiada ao lado de Rafael Aranda e Ramón Vilalta, fundadores do RCR Arquitectes, reforçando a potência do trabalho coletivo como prática autoral compartilhada. Sua arquitetura, profundamente enraizada na cidade espanhola de Olot, articula território, paisagem e cultura local como elementos estruturantes do projeto, explorando a materialidade na construção de atmosferas sensoriais e densas, nas quais arquitetura e natureza se entrelaçam de forma sutil e indissociável.

Em 2020, durante a pandemia, pela primeira vez nos 42 anos de história do prêmio, uma cerimônia presencial não pôde ser realizada. As irlandesas Yvonne Farrell e Shelley McNamara, sócias fundadoras do Grafton Architect foram as vencedoras do Pritzker. Reconhecidas internacionalmente por projetos institucionais e urbanos, suas obras se destacam pelo uso honesto e expressivo dos materiais, especialmente o concreto, e por uma abordagem que valoriza a escala humana, a monumentalidade silenciosa, a construção de espaços cívicos generosos e profunda conexão com o contexto local.

Última mulher a ser reconhecida, em 2021, Anne Lacaton recebeu o prêmio ao lado de Jean-Philippe Vassal, com quem fundou o escritório francês Lacaton & Vassal. Sua prática se destaca por intervenções que respondem de forma sensível e estratégica a temas como sustentabilidade, reuso e habitação social, propondo uma arquitetura que valoriza o existente e amplia as possibilidades de uso e permanência.

Em comum, essas trajetórias não apenas representam conquistas individuais, mas introduzem novas agendas e sensibilidades no debate arquitetônico global ampliando o repertório disciplinar e tensionando os critérios tradicionais de reconhecimento.
Reconhecimento ausente e narrativas incompletas
Se por um lado há conquistas relevantes e uma presença feminina paulatina entre os laureados, por outro persistiram lacunas significativas.
O caso de Denise Scott Brown e Robert Venturi é um dos exemplos mais emblemáticos de reconhecimento desigual na arquitetura. Sócios por décadas e coautores de uma produção teórica e construída fundamental para o pós-modernismo, ambos atuaram de forma indissociável no escritório.
No entanto, em 1991, o Prêmio Pritzker de Arquitetura foi concedido exclusivamente a Venturi, ignorando a contribuição central de Scott Brown. A decisão gerou críticas e, anos depois, motivou uma mobilização internacional pedindo seu reconhecimento, sem sucesso.
O episódio tornou-se símbolo das limitações do prêmio em reconhecer autorias compartilhadas, especialmente quando envolveram mulheres.

Situação semelhante ocorreu com Lu Wenyu, cofundadora do Amateur Architecture Studio. Em
2012, o prêmio foi concedido apenas a Wang Shu, apesar do próprio trabalho do escritório ser reconhecido como profundamente colaborativo, baseado na valorização de técnicas construtivas tradicionais e no contexto local.

Esses episódios revelam que a questão não se limita à ausência de mulheres entre os laureados, mas diz respeito, sobretudo, à forma como o reconhecimento é atribuído. Ao privilegiar narrativas individuais, o Prêmio Pritzker de Arquitetura historicamente simplificou a complexidade da prática arquitetônica que é essencialmente coletiva e, nesse processo, contribuiu para a invisibilização de trajetórias femininas.
Mais do que ampliar a diversidade entre os premiados, o desafio está em revisar os próprios critérios de legitimação: quem assina, quem concebe, quem viabiliza e, sobretudo, quem permanece na narrativa.
Nesse contexto, o Prêmio Pritzker de Arquitetura pode deixar de ser apenas um indicador de excelência para se afirmar como um instrumento crítico de leitura do nosso tempo, capaz de evidenciar não apenas avanços, linguagens e inovações, mas também a necessária revisão das estruturas ainda rígidas que persistem na arquitetura contemporânea.
FONTES
THE PRITZKER ARCHITECTURE PRIZE. Plataforma oficial do Prêmio Pritzker de Arquitetura. Base institucional para consulta de laureados, datas e diretrizes da premiação.
ARTIGO ACADÊMICO. Mulheres e o Prêmio Pritzker: estudos de caso, 2014. Análise crítica sobre a presença feminina na premiação, abordando invisibilização, autoria e reconhecimento no campo arquitetônico.
ARCHDAILY BRASIL. Cobertura editorial sobre o Prêmio Pritzker de Arquitetura. Referência para anúncios, perfis dos laureados e análises críticas sobre o impacto do prêmio na arquitetura contemporânea.
REVISTA CASA E JARDIM. As mulheres que venceram o Prêmio Pritzker nas últimas décadas, 2023. Reportagem que reúne e contextualiza as arquitetas premiadas, utilizada para atualização e organização das informações.


Comentários