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Carregamento de veículos elétricos em condomínios: como conciliar inovação, segurança e regularização

Foto do escritor: Pryscilla Zamberlan
Pryscilla Zamberlan
há 3 dias
7 min de leitura
carregamento carro eletrico

Há poucos anos, possuir um veículo elétrico era uma realidade restrita a nichos de mercado. Hoje, a eletrificação da mobilidade avança rapidamente em praticamente todos os países, impulsionada por políticas públicas de descarbonização, evolução tecnológica das baterias, redução gradual dos custos e metas globais para diminuir as emissões de gases de efeito estufa.


A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que o mundo já ultrapassa dezenas de milhões de veículos elétricos em circulação, com crescimento anual consistente. Países como Noruega, China e diversos membros da União Europeia transformaram o carro elétrico em política pública, enquanto fabricantes tradicionais anunciaram cronogramas para reduzir ou até encerrar a produção de veículos exclusivamente movidos a combustíveis fósseis.


O Brasil acompanha esse movimento. Embora represente um mercado mais recente, o número de veículos elétricos e híbridos cresce ano após ano, impulsionado pela ampliação da oferta de modelos, incentivos fiscais e expansão da infraestrutura de recarga.


Mas essa transformação trouxe um desafio pouco discutido: edifícios residenciais e comerciais passaram a integrar a infraestrutura da mobilidade elétrica. Projetados, em sua maioria, para uma realidade anterior, muitos não foram concebidos para suportar as novas demandas de energia, segurança e gestão que acompanham essa mudança.


O novo hábito muda a infraestrutura dos condomínios


Se os veículos convencionais dependem de postos de combustíveis, os elétricos dependem principalmente da recarga residencial. Estudos internacionais mostram que a maior parte dos carregamentos ocorre durante a noite, justamente quando o veículo permanece estacionado.


Na prática, isso significa que a garagem do condomínio deixou de ser apenas um espaço de estacionamento para assumir uma nova função: a de ponto de abastecimento da mobilidade elétrica.

Essa mudança parece simples, mas representa um desafio importante para edificações projetadas décadas antes da popularização dos veículos elétricos. O aumento da carga elétrica instalada pode exigir o redimensionamento da infraestrutura, a adequação dos quadros de distribuição, a implantação de novos sistemas de proteção e, em alguns casos, a ampliação da demanda contratada junto à concessionária de energia. Soma-se a isso a necessidade de definir critérios para medição individualizada do consumo, compatibilizar as intervenções com as áreas comuns e estabelecer responsabilidades entre condomínio e condôminos.


Em muitos casos, instalar um carregador não significa apenas "puxar uma tomada". Trata-se de uma intervenção que pode alterar significativamente o funcionamento das instalações elétricas da edificação, exigindo estudos técnicos para verificar a capacidade do sistema existente, avaliar a necessidade de adequações e garantir que a operação ocorra dentro dos parâmetros de segurança.


Além da infraestrutura elétrica, a implantação desses sistemas envolve aspectos de gestão condominial e responsabilidade jurídica. É preciso disciplinar a utilização das áreas comuns, estabelecer regras para cobrança do consumo, definir responsabilidades sobre instalação e manutenção dos equipamentos e assegurar que todas as intervenções estejam em conformidade com as normas técnicas aplicáveis.


Quando essas adaptações são realizadas sem planejamento, aumentam os riscos de sobrecarga das instalações, falhas elétricas, conflitos entre condôminos e passivos relacionados à segurança e à regularização da edificação. Por outro lado, um projeto bem estruturado permite que o condomínio acompanhe a evolução da mobilidade elétrica de forma segura, preservando o patrimônio coletivo e agregando valor ao empreendimento.


O caso de Teresina: quando um incêndio afeta todo o condomínio


Em março de 2026, um incêndio envolvendo um veículo elétrico em um condomínio de Teresina (PI) ganhou repercussão nacional após provocar danos estimados em aproximadamente R$ 1 milhão. O fogo atingiu outros veículos, comprometeu parte da estrutura da garagem e levantou discussões sobre protocolos de emergência, responsabilidade civil e cobertura securitária em edificações que recebem esse tipo de instalação.


O episódio chamou a atenção porque evidenciou que incêndios envolvendo baterias de íons de lítio demandam estratégias específicas de combate, diferentes das utilizadas em veículos convencionais. Embora estudos internacionais indiquem que veículos elétricos não apresentam maior probabilidade de incêndio do que veículos movidos a combustão, os episódios envolvendo baterias de íons de lítio exigem procedimentos distintos do convencional para combate e controle. O fenômeno conhecido como thermal runaway (fuga térmica) pode manter reações internas na bateria por um longo período, tornando o resfriamento mais complexo e aumentando o tempo necessário para a atuação das equipes de emergência.


O caso também trouxe à tona a importância das coberturas de seguro para o condomínio e para os proprietários dos veículos, bem como a necessidade de revisão dos procedimentos internos relacionados à prevenção de incêndios.


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Incêndio em Teresina: Bombeiros PI, divulgação redes sociais.

Mais importante do que discutir se o veículo elétrico é "mais perigoso" é compreender a principal lição do caso: a presença desses veículos altera o perfil de risco das garagens condominiais. A partir do momento em que há equipamentos de recarga e baterias de alta densidade energética instalados na edificação, torna-se indispensável revisar a infraestrutura elétrica, os protocolos de emergência e os critérios de regularização.


Situações como essa reforçam a importância de:


  • avaliar a capacidade elétrica da edificação;

  • instalar carregadores certificados e sistemas de proteção adequados;

  • estabelecer procedimentos de emergência específicos para a garagem;

  • verificar a necessidade de adequações no PPCI;

  • atender às exigências do Corpo de Bombeiros;

  • revisar as coberturas de seguro do condomínio e dos condôminos.


O caso de Teresina demonstra que a discussão sobre carregamento de veículos elétricos é um tema que envolve engenharia, segurança contra incêndio, responsabilidade civil, seguros e gestão patrimonial, exigindo planejamento técnico e conformidade com as normas mais recentes.

A resposta dos Corpos de Bombeiros e da regulamentação


O avanço da mobilidade elétrica também tem provocado mudanças na regulamentação. À medida que cresce o número de veículos eletrificados e de pontos de recarga instalados em condomínios, aumenta a necessidade de estabelecer critérios específicos para prevenção e combate a incêndios, considerando as características das baterias de íons de lítio e das infraestruturas de recarga.


No Rio Grande do Sul, esse tema esteve em discussão no âmbito do Corpo de Bombeiros Militar (CBMRS). Em julho de 2026, a corporação abriu consulta pública para a minuta da Resolução Técnica CBMRS nº 25 – Parte 1, que propõe medidas de segurança contra incêndio para locais com pontos de recarga de veículos e equipamentos eletrificados.

Segundo o CBMRS, a proposta foi elaborada com base em estudos técnicos, experiências operacionais e referências nacionais e internacionais. Entre seus objetivos estão aumentar a segurança das instalações elétricas, reduzir o risco de propagação de incêndios, facilitar a extração de fumaça e gases tóxicos e melhorar as condições de atuação das equipes de emergência. A minuta também adota como referência a Diretriz Nacional sobre Ocupações Destinadas a Garagens e Locais com Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos (SAVE), desenvolvida no âmbito da LIGABOM.


Enquanto a regulamentação específica continua em evolução, já existem normas técnicas consolidadas que orientam o projeto e a execução dessas instalações. Destacam-se a ABNT NBR 17019, que estabelece requisitos para infraestrutura de alimentação de veículos elétricos em instalações de baixa tensão, e a ABNT NBR 5410, referência para instalações elétricas de baixa tensão, que permanecem como base para o dimensionamento e a execução dos sistemas.

O cenário regulatório demonstra que a mobilidade elétrica deixou de ser uma tendência futura para se tornar uma demanda concreta da gestão predial. Nos próximos anos, é esperado que estados e municípios avancem na publicação de normas específicas, consolidando requisitos de segurança para edificações que possuam infraestrutura de recarga.



Conclusão


A mobilidade elétrica representa uma transformação permanente na forma como as cidades consomem energia e utilizam sua infraestrutura. Nesse contexto, os condomínios deixam de ser apenas locais de estacionamento para assumir um novo papel dentro da cadeia de abastecimento dos veículos elétricos.


Essa mudança exige mais do que a instalação de carregadores. Dependendo das características da edificação, podem ser necessários estudos de capacidade elétrica, adequações nas instalações, compatibilização com o PPCI, atualização de projetos, definição de responsabilidades entre condomínio e condôminos e atendimento às exigências dos órgãos competentes.


Assim como ocorreu com a acessibilidade, os sistemas fotovoltaicos e a prevenção contra incêndio, o carregamento de veículos elétricos passa a integrar o conjunto de temas que demandam planejamento, regularização e gestão técnica especializada.

Sob a perspectiva da arquitetura legal, preparar uma edificação para essa nova realidade significa antecipar riscos, preservar o patrimônio, reduzir passivos e garantir que a inovação ocorra em conformidade com as normas vigentes. Mais do que acompanhar uma tendência tecnológica, trata-se de adaptar o ambiente construído às transformações que já estão redefinindo a mobilidade urbana e, consequentemente, a própria forma de projetar, administrar e regularizar os condomínios.


_______


CHECKLIST: o que avaliar antes de instalar carregadores de veículos elétricos no condomínio


A instalação de sistemas de carregamento deve ser precedida por uma análise técnica da edificação. Antes de iniciar qualquer intervenção, vale verificar os seguintes aspectos:


🗹 Capacidade elétrica da edificação

Avaliar se a infraestrutura existente suporta o aumento da carga ou se serão necessárias adequações nos circuitos, quadros elétricos ou na demanda contratada junto à concessionária.


🗹 Projeto elétrico atualizado

Verificar se os projetos refletem a configuração atual da instalação elétrica e se contemplam a implantação dos novos equipamentos.


🗹 Conformidade com as normas técnicas

Garantir que o sistema atenda às exigências da ABNT, especialmente às normas aplicáveis às instalações elétricas e à infraestrutura para carregamento de veículos elétricos.


🗹 Exigências do Corpo de Bombeiros

Analisar a necessidade de adequações relacionadas ao PPCI, às Instruções Normativas vigentes e aos procedimentos de prevenção e combate a incêndio.


🗹 Definição das responsabilidades

Estabelecer, por meio de regulamento interno ou convenção condominial, critérios para instalação, manutenção, operação e responsabilização pelos equipamentos.


🗹 Medição e cobrança do consumo de energia

Definir como será realizado o controle do consumo individual, evitando conflitos entre condôminos e assegurando um rateio transparente.


🗹 Cobertura securitária

Verificar se as apólices do condomínio contemplam os novos riscos associados ao carregamento de veículos elétricos e orientar os condôminos quanto às coberturas individuais.


🗹 Responsabilidade técnica

Toda instalação deve ser projetada e executada por profissionais habilitados, com emissão da documentação técnica correspondente, garantindo segurança, rastreabilidade e conformidade legal.


FONTES


Agência Internacional de Energia (IEA) – Global EV Outlook.


ABNT NBR 17019 – Infraestrutura para carregamento de veículos elétricos. ABNT NBR 5410 – Instalações elétricas de baixa tensão.


Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS) – Informativo técnico com orientações de segurança contra incêndio para sistemas de alimentação de veículos elétricos.


Autopapo - “Carro elétrico pega fogo em garagem de Teresina e causa prejuízo de R$ 1 milhão”.


CQCS - “Incêndio em carro elétrico causa prejuízo de quase um milhão em prédio; seguro pode indenizar danos ao veículo e terceiros”. cqcs.com.br

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